quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O fim da internet

Artigo publicado no Observatório da Imprensa

Autor: Sérgio da Mota e Albuquerque
Eric Schmidt, presidente (e ex-executivo chefe) do Google, anunciou, durante conferência no Fórum Econômico Mundial em Davos (Suíça), que a internet como a conhecemos hoje vai desaparecer. A CNBC (23/1) publicou o vídeo onde Schmidt explicou que a internet será parte de nossas vidas de tal forma que passará despercebida. É a “internet das coisas”: óculos que monitorarão a segurança urbana, anéis e pulseiras que medirão pressão arterial de usuários ou geladeiras que informarão as rotinas e menus nas cozinhas das residências. Todos os outros gadgets que usamos e objetos com os quais interagimos em nosso cotidiano estarão interconectados. O tempo todo.
Quando Tim Berners-Lee comentou anos atrás sobre as geladeiras conectadas, eu achei graça. A coisa toda me pareceu uma loucura ou devaneio de cientista empolgado com a rede mundial de computadores. Eu estava errado. Muito errado. Em pouco tempo, os objetos eletrônicos terão presença própria na web, segundo o executivo do Google, que também é um grande analista de TI e membro do “clube” de Bilderberg (que foi criado para combater o antiamericanismo que prevalecia na Europa em 1954, e não para dominar o mundo, como querem os teóricos da conspiração).
O especialista em TI Jag Bath, da RetailMeNot, explicou na CNBC que na verdade o que vai mudar é o modo pelo qual nos conectamos. Hoje dependemos de notebooks, PCs,tablets e outros aparelhos que fazem a conexão com a web através do protocolo IPv4, que esgotou sua capacidade devido ao grande número de usuários da internet e agora dará lugar ao IPv6, que aumentará muito a capacidade operacional da rede e permitirá que cada objeto tecnológico tenha seu próprio endereço virtual na web. Isso mesmo, leitor(a): os objetos terão endereço na web. E “conversarão” entre si.
Tudo e todos estarão conectados, e isso deixou muita gente preocupada. Demi Getschko, membro do Comitê Gestor da Internet no Brasil, alertou para o perigo potencial da conectividade contínua e ininterrupta no Portal IG tecnologia (25/1):
“Tudo estará ligado, com as coisas boas e ruins que isso traz. As boas coisas, de que todos falarão: conforto para todo mundo e conectividade ampla. Coisas ruins? Privacidade em alto risco. Tudo que você faz pode ser conhecido. Tudo que seus equipamentos fazem entre si poderá ser passado para outros equipamentos. São coisas complicadas. Nossa privacidade pode estar em risco.”
Ingenuidade e desconhecimento
Getschko acredita que a aplicação das normas do Marco Civil da Internet poderá arrefecer os perigos da conectividade ubíqua e invasiva. E que só a lei poderá nos proteger da coleta e do comércio de dados pessoais que alimentam as grandes corporações do Vale do Silício e que vai aumentar muito em cerca de 10 anos, ou menos, com a presença dos objetos conectados à rede somada às conexões pessoais e comerciais proporcionada pelo novo protocolo de conexão.
Getschko também apontou para um fato já amplamente discutido: a ilusão do anonimato na web, alimentada desde 1993. Ela não existe e o Projeto Tor, que promete anonimidade na rede, é uma farsa alimentada pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos. Segundo o especialista, é um grande engano acreditar que alguém está anônimo porque mudou seu endereço (IP) na web. Getschko lembrou que “quem transformou um IP em outro pode guardar essa transformação”. Em outras palavras, quando alguém muda sua identificação na web também grava toda a operação.
O especialista lembrou que a maior parte dos roteadores da rede Tor “roda em domínios controlados pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos”. Por isso, de vez em quando redes criminais inteiras são desmascaradas na web: o Tor é um programa desenvolvido com auxílio do governo americano antes dos atentados às Torres Gêmeas, em 2001.
Não foi só o Tor que foi concebido com a ajuda do Departamento de Defesa americano. A própria internet nasceu de um projeto militar para uma rede sem centros, criada para sobreviver a um grande bombardeio que destruiria a maior parte do país. Ela foi concebida durante a Guerra Fria para restabelecer a comunicação entre os militares, centros de pesquisa e outros pontos estratégicos de um território devastado.
Os militares americanos nunca perderam totalmente o controle do programa. Ele funciona como uma armadilha para espionar e informar o governo sobre crime e terrorismo na web. Além de espionar cidadãos comuns que gostam de explorar a rede, sites de outros países e seus governantes e funcionários, ou o trabalho de profissionais de segurança que precisam navegar em águas perigosas para testar condições e conexões de segurança de rede. Acreditar que podemos usar a web em condição de total anonimato é muita ingenuidade. Além de desconhecimento dos fundamentos básicos da história da internet e da web.
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Sergio da Motta e Albuquerque é mestre em Planejamento urbano, consultor e tradutor

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Senadora Isabel Allende, filha do presidente deposto, comemora reforma do sistema eleitoral de Pinochet

Senado chileno aprova fim do sistema eleitoral herdado de Pinochet
O Senado chileno aprovou nessa quarta-feira (14) uma reforma no sistema eleitoral que o general Augusto Pinochet implementou antes de deixar o poder em 1990, depois de 17 anos de ditadura. O chamado “sistema binominal”, para eleger deputados e senadores, foi criado para dificultar o surgimento de candidatos independentes e garantir um empate no Congresso entre as duas grandes coalizões de centro-esquerda e centro-direita.
A direita chilena sempre apoiou o sistema binominal, argumentando que ele garantia a estabilidade no país: nenhum presidente eleito podia mudar os rumos políticos e econômicos, traçados por Pinochet, sem negociar com a oposição. Mas a impossibilidade de os governos fazerem as reformas prometidas, por falta de apoio no Congresso, acabou afetando a credibilidade dos políticos em geral – inclusive os de direita. Por isso, pela primeira vez desde o retorno à democracia, foi possível reunir votos suficientes no Senado para reformar o sistema eleitoral.
Depois de 21 horas, o fim do sistema binominal foi aprovado ontem por 24 votos a favor, três contra e sete abstenções. O novo sistema deverá entrar em vigor nas eleições legislativas de 2017.
A presidenta do Senado, Isabel Allende, considerou histórica a votação para derrubar o sistema binominal. Ela é filha do ex-presidente Salvador Allende, cujo governo foi derrubado pelo golpe militar, liderado por Augusto Pinochet, em 1973.
Para o ministro do Interior, Rodrigo Peñailillo, a decisão do Senado “acabou com um sistema eleitoral único no mundo”, que engessou o Congresso e “prejudicou muito a democracia chilena”. Ele lembrou que pela primeira vez, desde o fim da ditadura, o Chile “abrirá as portas para novas forças políticas” e terá maiorias e minorias, com capacidade de representar seus eleitores.
Pelo sistema binominal, cada partido apresentava uma chapa com dois candidatos, mas para eleger ambos não bastava obter mais votos – era preciso dobrar o número da segunda lista mais votada. O melhor exemplo de funcionamento do sistema binominal ocorreu em 1989. A esquerda apresentou uma chapa com dois candidatos que obtiveram, cada um, 30% dos votos. Os candidatos da direita ficaram com apenas 17% e 15%. Foi pouco mais da metade dos votos obtidos pela esquerda, mas o suficiente para garantir à direita uma das duas vagas no Senado.
O fim do sistema binominal foi uma das promessas de campanha da presidenta Michelle Bachelet. “A reforma do sistema eleitoral é, sem dúvida, um grande avanço”, disse Bachelet depois da votação no Senado.

(Ultimo Instante)

Agência Brasil

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Enem revela a queda do ensino médio no Brasil


Olimpio Guarany

O resultado do Enem é emblemático. Mais de 500 mil, dos pouco mais de 6 milhões que fizeram as provas em 2014 tiraram "zero", é isso mesmo "zero", em redação. É um reflexo indiscutível de que somos um país sem hábito de leitura. Não se estimula a criança, o adolescente, à leitura, por isso somos caracterizados como país de terceiro mundo, onde ainda temos muitos analfabetos e a qualidade do ensino é uma das piores do mundo.
O resultado do Enem 2014 revela que que o ensino médio no Brasil está estagnado. No resultado divulgado pelo MEC, caíram as médias de redação e de matemática. Se buscarmos a série história do Ideb - Indice de Desenvolvimento da Educação Básica - vamos constatar a mesma coisa: nunca conseguimos alcançar a média 4,0 numa escala de 10,0.
O que se constata é que somos um país com analfabetos funcionais. A ordem é passar de ano, mesmo que os alunos não saibam ler um enunciado, explicar uma idéia, fazer um texto lógico. E aí me vem o ministro da Educação, Cid Gomes, dizer que não foi uma queda significativa. Ora, estamos caindo  ano a ano, ministro! Pra completar ele diz na TV que o tema era difícil, francamente ministro!
Se a presidente Dilma pretende fazer do novo governo, um governo sério, terá que rever as políticas públicas para educação. Será necessário uma reforma educacional ampla,  se  não o fizer, o Brasil perderá mais e mais competitividade internacional. Como fazer um país se desenvolver se a educação é precária? Está tudo errado. Só teremos um país sustentável se tivermos uma educação pública de qualidade.
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Olimpio Guarany é jornalista, economista, publicitário e professor universitário.