segunda-feira, 24 de julho de 2017

São Tiago, a história recontada há 240 anos


Olá. 25 de julho marca a mais tradicional manifestação histórico-cultural-religiosa do Amapá. Leia a reportagem.

A história
Era final do século 18 quando estava em andamento o processo de colonização da Amazônia pela Coroa Portuguesa. O Amapá receberia seus primeiros colonizadores cuja imigração ganhou contornos épicos.
Desde 1502 os portugueses se utilizavam de um porto no norte da Africa como apoio na rota para as Indias. Em 1513, eles ergueram na Baía de Dukkala, no Marrocos, uma fortaleza que até hoje surpreende especialistas em engenharia de fortificações. Batizada de Mazagão, do árabe "água quente", devido à abundância de poços artesianos na região, a base militar servia aos navegadores portugueses na rota em direção às Índias, e defendia cristãos de ataques dos nativos muçulmanos.
A Mazagão Africana, hoje conhecida como El Jadida, no Marrocos, foi uma possessão de Portugal até 1769 quando Marquês de Pombal decidiu retirar todos os habitantes do local cercado pelos mouros e enviá-los para onde é hoje o Amapá, como parte dos seus planos de ocupação da Amazônia.
A odisséia
Essas 163 famílias cumpriram uma verdadeira via crucis. Foram levadas primeiro para a baia de Lisboa onde permaneceram alguns meses enquanto era preparado o local na Amazônia. Depois de atravessar o Atlântico foram instaladas em Belém para, alguns meses depois, serem transferidas para um lugar inóspito, onde é hoje a Vila de Mazagão Velho.
A cidade que atravessou o Atlântico guarda na sua memória e na tradição os vínculos da sua história: os moradores locais revivem há quase dois séculos e meio a batalha entre cristãos e mulçumanos testemunhada pelos seus ancestrais, no norte da Africa. Guardada por São Tiago e São Jorge, santos que segundo a história apareceram em meio a batalha para defender os cristãos.

Os marroquinos trazidos para o Brasil trouxeram em sua bagagem a cultura do norte da Africa que, disseminada ao longo dos anos, deram importante contribuição para a história cultural da humanidade.
Andar por Mazagão velho é como fazer uma viagem ao passado que remonta há mais de dois séculos. Neste período da festa de São Tiago, as ruas estreitas enfeitadas e a alegria do povo local ressalta o ambiente que respira história. Parece que voltamos para Mazagão, do Marrocos e estamos bem no meio da batalha que fez uma cidade mudar de continente.

A batalha e o folclore
O fascínio por trás da odisséia de Mazagão é tão grande que inspirou lendas e festas regionais como a de São Tiago. Desde 1777 a comunidade de Mazagão Velho se une aos visitantes para lembrar a batalha entre Cristãos e Mouros pela hegemonia da fé no continente africano. A festa tem duas vertentes, o lado religioso que reverencia São Tiago, o padroeiro do lugar, e o histórico-cultural momento em que os moradores revivem, em uma peça num palco a céu aberto pelas ruas de Mazagão , a célebre vitória dos cristãos portugueses sobre os mulçumanos.

A peça
Essa manifestação religiosa-folclórica é protagonizada por pessoas comuns, gente da comunidade, sem formação teatral ou técnica de interpretação, mas mesmo assim conseguem emocionar os visitantes e o povo do lugar, graças a beleza do figurino, das cores e sobretudo pela garra e desenvoltura. Esses atores que, antes de tudo, são motivados pela fé em São Tiago e pelo respeito a tradição bicentenária, conseguem imprimir realismo às cenas da batalha.

A comunidade em festa
No dia 25 de julho a comunidade é despertada cedo e começa a transladação. A procissão transporta a imagem de São Tiago da igreja de Nossa Senhora da Assunção para a pequena capela, na praça central.
Os fiéis cristãos se misturam aos visitantes e aos membros da comunidade, se espalhando pela praça e ruas próximas. Os protagonistas da encenação da batalha entre cristãos e mouros tem posição privilegiada.

Reza a lenda que na batalha ocorrida no norte da Africa, os cristãos contaram com a ajuda de um guerreiro chamado Santiago e seu amigo Jorge. A atuação deles foi decisiva para a vitória dos cristãos.
Durante a festa e a encenação esses guerreiros são representados por figuras de santos da igreja católica, São Tiago e São Jorge, cujos personagens tem lugar de destaque no momento da celebração da missa.
No percurso, a procissão do Círio para em residências de famílias tradicionais que ornamentam cuidadosamente a frente das suas casas para as reverências a São Tiago.
No decorrer da procissão os cavaleiros destacados na batalha vitoriosa dos cristãos, Santiago e Jorge fazem evoluções para o deleite de quem fica às margens do caminho e na frente das casas enfeitadas, assistindo o cortejo.
O círio termina na igreja de Nossa Senhora da Assunção, padroeira da comunidade, onde é colocado o andor de São Tiago que permanecerá até o próximo ano.
Após as celebrações religiosas, os olhos do público se voltam para a batalha que é encenada na rua senador Flexa, em frente a Mazagão velho, às margens do rio Mutuacá, por onde chegaram as famílias africanas no início da década de 1770.
E assim se mantém uma tradição de mais de 200 anos, cujo envolvimento de um povo simples e humilde, mas alegre e hospitaleiro, reflete a fé e inspira um heroismo que é lembrado a cada ano, envolvido pelo calor da emoção e da solidariedade.
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*Olimpio Guarany é jornalista, professor universitário e apresentador do programa “O Repórter da Amazônia"

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